Storytelling é a vida que acontece todos os dias
Os profissionais de comunicação incorporaram a palavra storytelling ao seu vocabulário. Hoje, é raro participar de uma reunião sem ouvir alguém dizer que é preciso melhorar o storytelling para tornar uma mensagem mais clara, envolvente e próxima das pessoas.
Mas, afinal, o que é storytelling?
De onde veio esse conceito? Para onde ele nos leva? E será que o uso cada vez mais frequente, muitas vezes indiscriminado, não acabou esvaziando o verdadeiro sentido da palavra?
Nos últimos dez anos, storytelling passou a ser usado para explicar quase tudo. Às vezes, até o que não tem explicação. Ganhou espaço na comunicação institucional, na publicidade, nas apresentações, nos vídeos, nos discursos, nas redes sociais e nas estratégias de comunicação.
Talvez seja justamente esse uso excessivo que tenha nos afastado da pergunta mais importante. Afinal, o que realmente é storytelling? Será que ele começa quando contamos uma história ou muito antes disso?

Storytelling muito antes da palavra
No último artigo, escrevi sobre a escuta na comunicação, bebendo da fonte da literatura e defendendo que toda boa comunicação começa quando alguém está disposto a escutar. Agora, volto meu olhar para as histórias que contamos.
Muito antes de a palavra storytelling entrar no vocabulário da comunicação, pessoas já compartilhavam experiências por meio de narrativas.
Lembra da sua mãe contando histórias que só existiam no imaginário dela? Dos professores apresentando mundos por meio de histórias na sala de aula? Ou dos seus avós contando histórias?
A história mostra que contar histórias sempre foi uma forma de organizar experiências, preservar memórias, transmitir conhecimentos e construir identidades, seja aqui no Brasil, seja em qualquer outro lugar do mundo.
Estudos sobre a evolução da linguagem sugerem que a capacidade humana de desenvolver linguagem verbal surgiu entre 50 mil e 100 mil anos atrás. Ao longo desse percurso, surgiram cerca de 7 mil línguas, faladas hoje em diferentes partes do mundo.
Contar e ouvir histórias é uma necessidade humana. Muito antes de existir uma técnica, já existia a necessidade de compartilhar experiências. Do ponto de vista histórico, foi apenas muito recentemente que o campo da comunicação passou a sistematizar parte dessa prática sob o conceito de storytelling.

Toda história nasce de uma experiência
Talvez por isso eu prefira pensar que storytelling não é apenas uma técnica de comunicação.
Storytelling é a vida que acontece todos os dias.
Mas nem tudo o que vivemos se transforma em história. Contar uma história pressupõe escolher experiências e acontecimentos que serão narrados.
Nós, comunicadores, precisamos lembrar que toda história nasce de uma experiência, seja ela qual for. Alguém, em algum momento, viveu alguma coisa. O nosso trabalho não é inventar histórias, mas reconhecê-las, compreendê-las e saber contá-las.
Por isso, reuni perspectivas sobre as narrativas humanas, bebendo nas fontes da literatura, do cinema, do teatro e da tradição oral. Embora tenham surgido em épocas, áreas do conhecimento e contextos diferentes, essas visões ajudam a compreender por que contar histórias é uma prática humana muito anterior ao storytelling como técnica de comunicação.
A partir daqui, convido você a percorrer sete abordagens sobre as narrativas humanas. Há muitas outras leituras possíveis, mas escolhi essas porque ajudam a compreender as narrativas e, a partir delas, refletir sobre o storytelling.
Talvez, ao final da leitura, a palavra ganhe um significado um pouco mais amplo do que aquele que costumamos ouvir nas reuniões de comunicação.
Sete pensamentos que dialogam entre si
• O narrador transmite experiência.
• Os seres humanos são contadores de histórias.
• Os seres humanos cooperam porque compartilham histórias.
• O ser humano organiza sua experiência por meio das narrativas.
• As histórias ajudam as pessoas a acreditar, compreender, lembrar e agir.
• Histórias despertam empatia e fortalecem a confiança por meio das emoções.
• As narrativas estão presentes em todos os tempos, em todos os lugares e em todas as sociedades.
A história antes da técnica
Storytelling é a vida que acontece todos os dias, seja na esfera pessoal, seja nas organizações em que trabalhamos. O verdadeiro storytelling é aquele que os outros constroem a partir das nossas práticas, das nossas atitudes e das nossas escolhas. A técnica ajuda a organizar a narrativa, mas não substitui a experiência que dá origem a toda boa história.
E, quando falta autenticidade, não há storytelling que a salve.
Este artigo faz parte de uma série de ensaios sobre comunicação. Outras reflexões sobre jornalismo, comunicação estratégica e narrativas estão disponíveis no meu LinkedIn.
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