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A Cabeça do Santo: Comunicação também se faz com os ouvidos e imaginação?

A Cabeça de Santo

Os primos dos meus primos são primos da Socorro, de A Cabeça do Santo, que são primos do Falcão e netos do Chico Anysio. E dizem que o Fagner pegava ônibus em frente à bodega da minha avó, Luiza Maria da Silva, ao lado da Ponte do Rio Salgado. Lá, ele tocou violão, comprou pão e cigarro. Quase todos os meus primos são exóticos e possuem letras a mais nos nomes.

Belchior, antes de partir, me dizia que tudo isso era invenção, que o próprio nordeste era uma invenção. Mas, em Auto da Compadecida, antes da bala, eu entendi por que todos éramos parentes.

Conto esta história para convidar vocês à leitura de “A Cabeça do Santo“”, de Socorro Acioli. Um livro que conta a história de um lugar que, por coincidência, minha mãe gostava de frequentar. Neste lugar, ela acendia velas, pagava promessas, fazia promessas pelos outros. Falo da mística Canindé, Juazeiro do Norte, Cariri, São Francisco, Santo Antônio, Padre Cícero. Recentemente, voltei ao Cariri com meu pai, tem imagem abaixo.

Em A Cabeça do Santo, Samuel é um menino franzino que se parece com tantos, que ficam à espreita para servir e contar histórias deste Brasil. Da escuta de Samuel, personagem de Socorro, fiz um resumo sobre comunicação. Talvez seja útil a quem queira fazer comunicação ou pensar sobre ela. E, claro, também ler um livro potente sobre a literatura brasileira do fantástico popular real que pulsa.

Seu Francisco, filho de Nel, e Wemerson, filho de Chico de Nel.

A Cabeça do Santo e as lições para quem comunica

O que jornalistas, publicitários, profissionais de assessoria de imprensa e de comunicação, roteiristas, cineastas e gestores de comunicação podem aprender com Samuel, personagem principal do romance “A Cabeça do Santo”, da escritora e jornalista Socorro Acioli?

Samuel, o menino franzino, encontra abrigo dentro da cabeça de uma gigantesca estátua inacabada de Santo Antônio. É dali que começa a ouvir as preces das mulheres de Candeia, a cidade imaginária. Samuel não escuta apenas pedidos.

Escuta desejos, angústias, esperanças e medos. Escuta histórias. E é essa escuta que sustenta todo o romance.

Socorro Acioli nos apresenta, talvez sem essa pretensão, uma grande reflexão para quem faz comunicação.

A cabeça da estátua de Santo Antônio foi montada no chão e nunca foi unida ao corpo. Inspirado nesta história da cidade de Caridade, Socorro escreveu o romance.

Antes das ferramentas, das plataformas, dos algoritmos, das métricas e das estratégias, existem pessoas, existem histórias. Existem vidas que precisam ser percebidas, compreendidas e contadas.

Entre a escuta e o ato de contar uma história, existe a imaginação. É ela que nos permite enxergar possibilidades, estabelecer conexões e transformar aquilo que ouvimos em narrativa.

O comunicador precisa escutar para encontrar histórias. Quem trabalha com assessoria de imprensa e comunicação precisa escutar para compreender organizações, fontes e públicos.

O publicitário precisa escutar para entender comportamentos e desejos. O roteirista e o cineasta precisam escutar para construir personagens e narrativas. E quem faz a gestão da comunicação precisa escutar antes de decidir o que, como e para quem comunicar.

Escutar não é somente esperar a nossa vez de falar. É prestar atenção. Observar. Fazer perguntas. Perceber os detalhes, os silêncios e aquilo que nem sempre é dito de maneira explícita.

Talvez seja por isso que A Cabeça do Santo seja também uma leitura tão interessante para quem trabalha com comunicação. Socorro Acioli parte da escuta e faz aquilo que a literatura sabe fazer tão bem. Usa a imaginação para transformar o que escutamos em histórias.

Samuel ouve aquilo que ninguém mais consegue ouvir. E, a partir dessa escuta, surgem histórias, encontros, conflitos, desejos e transformações. Samuel é o personagem que chega com “o ventre quase colado nas costelas” e conhece Candeia pelas vozes de quem quase ninguém escuta.

A escritora Socorro Acioli em entrevista à jornalista Poliana Brito.

A literatura nos ensina a olhar para as pessoas e perceber que uma história pode estar onde aparentemente nada está acontecendo. Onde ninguém olha. Em quem ninguém escuta.

Escutar nos aproxima da vida. Imaginar nos ajuda a transformá-la em narrativa. E quem sabe essa seja uma das grandes lições para quem trabalha com comunicação. Porque é a vida, no fim das contas, que sustenta toda boa história e toda boa comunicação.

Uma fotografia que simboliza a mística do lugar, na Vila do Horto, em Juazeiro do Norte, no coração do Cariri. No retrato, Chico de Nel. Foto: Wemerson Augusto

Gostou? Tem uma conversa aqui com Itamar, literatura e comunicação.

Onde encontrar o livro
A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli, pode ser adquirido pelo site da Companhia das Letras. A obra também está disponível para empréstimo e leitura gratuitos na plataforma MEC Livros, do Ministério da Educação, mediante acesso com a conta Gov.br.

Wemerson é jornalista e escutador de histórias.

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